Acerca do Partido Humanista e a situação no mundo

Acerca do Partido Humanista e a situação no mundo

Penso que neste momento nos encontramos numa situação muito interessante no Partido Humanista a nível mundial. Estamos a experimentar a crise e isso é maravilhoso! Temos esta oportunidade maravilhosa de refletir, perguntando-nos quem somos e onde vamos. E tenho uma fé imensa de que iremos conseguir resolver os nossos problemas.

Devo começar por afirmar que eu odeio a política no sentido “tradicional”, mas amo verdadeiramente a política quando a mesma trata da construção das mais profundas aspirações do ser humano. Amo o que o Partido Humanista representa no contexto da Humanização da Terra.

Na Islândia, onde vivo, e no resto do mundo sofremos uma nova rotura do sistema financeiro. Esta trouxe consigo – de igual forma que outras roturas anteriores ao longo do tempo – muito sofrimento humano e muitas pessoas continuam a sofrer muito depois da recuperação do sistema financeiro (às custas do povo em geral). Mas ao mesmo tempo verificamos um fenómeno social muito interessante como os movimentos “Occupy” e o surgimento de vários grupos e organizações interessantes de base social, uns mais que outros, que questionam a ordem do neo-liberalismo e o monopólio dos bancos e seus donos.

Na Grã-Bretanha há um grupo designado “Positive Money” https://www.facebook.com/#/PositiveMoney defendendo a ideia de retirar aos bancos privados o poder de criar dinheiro através da dívida, deslocando esse poder para o Estado, onde a quantidade de dinheiro criado seria decidida por um corpo eleito democraticamente. Temos ainda o conceito de rendimento básico incondicional https://www.facebook.com/#/basic.income que começa a surgir em diferentes países, como a Suíça onde haverá provavelmente ainda este ano um referendo sobre esta matéria. Também se verificou que as cooperativas conseguiram aguentar o choque muito melhor que as empresas privadas http://ilo.org/empent/Publications/WCMS_108416/lang--en/index.htm . E recordamos a incrível Cooperativa Mondragon em Espanha : http://www.mondragon-corporation.com . Encontramos um exemplo simpático de um interessante banco livre na Suécia http://www.youtube.com/watch?v=aW2pj109Cr8 . Na Islândia temos ainda uma organização designada ALDA ( nome islandês para onda) para Democracia Real e Sustentabilidade http://en.alda.is/ . Esta organização é a filha legítima da revolução dos tachos e das panelas, fundada sobretudo por filósofos e cientistas sociais, estudantes e professores, como uma resposta clara à falta de alternativas de modelos sociais que se seguiram à revolução. Eles procuram referência num fórum designado Utopias Reais nos EUA http://www.ssc.wisc.edu/~wright/RealUtopias.htm . Nós, no Partido Humanista na Islândia, trabalhamos sempre muito próximos deles desde o princípio e ainda colaboramos em conferências e atividades sociais. E por último, mas não menos importante, temos Pressenza, a nossa maravilhosa media internacional que difunde a mensagem do humanismo para que possa ser ouvida nos quatro cantos da Terra.

Estes são apenas alguns exemplos de coisas que se movimentam “a nosso favor”, algumas novas e outras velhas e certamente que mais coisas têm vindo a acontecer que eu não conheço ou recordo.

Durante o processo da crise financeira e seu desenvolvimento posterior, tivemos ainda um documento muito útil e inspirador do Partido Humanista internacional “O posicionamento do PHI face à situação mundial” de maio de 2012 onde o PHI analisa a situação mundial e apresenta as principais propostas do PHI. Este documento preparado pela Equipa Internacional, tal como entendo, foi uma grande fonte de inspiração para todos nós na Islândia, quando preparamos a nossa plataforma política para a participação do PH nas eleições para o Parlamento em abril de 2013. Também tivemos - durante o tempo do “Occupy” e da revolução dos Tachos e Panelas na Islândia – uma cooperação muito construtiva com grupos e organizações de base social constituídas durante os anos de “rotura financeira” e ainda continuamos a trabalhar com algumas delas.

Então tivemos uma rotura financeira, tivemos muitos projetos positivos com iniciativas de base emergentes no mundo e temos uma grande crise no Partido Humanista. O que mais poderemos pedir? 

Claro que enfrentamos dificuldades, mas as dificuldades são belas oportunidades de aprendizagem. Como eu vejo as coisas é que nos encontramos num dilema entre escolhas; por um lado, se devemos apresentar o coerente e revolucionário programa político do PH, de forma aberta e sem compromisso e obter apenas alguns votos (pelo menos é como se tem verificado); ou, por outro lado, trabalhar taticamente com outros partidos políticos ou governos - mesmo alguns dos tradicionais – e obter mais votos e chegar a uma posição com mais poder e influência, mas com sacrifício dos nossos ideais que nunca poderão ser atingidos dentro do sistema politico existente. Também se estamos muito próximos do poder, poderá faltar-nos a liberdade de podermos protestar e podermos expressar-nos quando aqueles poderes vão contra as nossas ideias básicas.
Assim, penso que os nossos conflitos internos não são acerca das ideias do Partido Humanista, não ouvi quaisquer vozes a oporem-se ou discordarem com as avaliações políticas e propostas globais feitas pelo PHI. Os nossos conflitos internos são sobretudo sobre táticas e é sobre organização interna e levar à prática uma verdadeira democracia real e comunicação aberta dentro do nosso partido e lá fora na sociedade.
Creio que em sentido amplo a questão das “táticas” necessita de ser decidida pelo respetivo PH em cada país. Mas a formulação da nossa mensagem política geral e a organização interna geral, bem como a prática da democracia real e comunicação aberta, deve ser algo abordado internacionalmente, em consonância com os nossos documentos básicos e a nossa direção rumo a uma Nação Humana Universal.

Finalmente parece-me que precisamos de ser bons ouvintes, precisamos de ser capazes de ouvir a “erva a crescer”…Há uma grande corrente subterrânea de uma nova sensibilidade política e social… suspeito que as novas gerações não pensam segundo a via da democracia representativa. As novas gerações a quem escuto, detestam os políticos tradicionais e as suas farsas no Parlamento. As novas gerações vêem e vivem a internet como um local de liberdade e acesso para todos sem discriminação, as novas gerações querem democracia direta nas escolas e em todos os outros aspetos da vida e querem transparência e comunicação aberta. Os jovens não se interessam por eleições, vimos isso claramente nas últimas eleições municipais este ano na Islândia, com uma participação drasticamente reduzida de novos e jovens votantes.

Trabalhar e partilhar com outros grupos e organizações progressistas é também muito interessante. Eu não acredito que o Partido Humanista, sozinho (nem qualquer outro partido) vá mudar o mundo, mas podemos dar direção e inspirar outros grupos, organizações e indivíduos para se moverem na nossa frequência e na mesma direção em direção a Nação Humana Universal.

Um grande e caloroso abraço para todos
Julius Valdimarsson
PH da Islândia

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